domingo, 15 de fevereiro de 2015

Entre a ORDEM e a DESORDEM.


Para vivermos em sociedade devemos seguir um mínimo de ordem e de regras.  Abrimos mãos de parte das nossas liberdades em prol das liberdades alheias em um permanente convívio de equilíbrios e negociações diárias. Seja na microfísica do poder de nossas relações sociais, quanto na esfera nacional enquanto país, povo, nação.

A sensação da ordem é um sintoma de nossas rotinas cujos benefícios  são gigantescos, mas que nos recalcam e nos fazem sofrer uma vez que  precisamos, sob o império da Lei, seguir e atender a tal ordem legislativa e dessa forma controlar nossos impulsos  - desde os mais bestiais até o aparentemente mais inofensivo. Contradição cruel, dolorosa, mas necessária. Pelo outro lado, ao não seguirmos qualquer ordem geramos sentimentos incontroláveis e conflitantes muito mais severos para nossa saúde e nossa psiquê. Em grupos, por resposta ao caos diário e a insegurança cotidiana, onde o homem lobo do homem solta as amarras de seus impulsos, esse sentimento de impotência babélica nos afasta uns dos outros inviabilizando a salvação. De certo modo o afastamento justifica a violência como resposta à ameaças permanentes daquele que nos parece estranho, sejam ameaças reais ou fantasiosas. Freud já tinha escrito que éramos seres que nos excedemos a nós mesmos e que a nossa existência ultrapassaria a nossa circunstância imediata, uma vez que somos os únicos animais capazes de sonhar, imaginar e realizar um novo amanhã, apesar de tudo e de todos. 

Apesar do sentimento de espanto ou receio sobre qual será o dia de amanhã, avançamos descrentes, mas com coragem pois é a única coisa que nos resta. Viver exige coragem! Não a heróica, referente aos titãs mitológicos, mas a coragem diária dos anônimos e comuns mortais citadinos, pais e mães de família, neurotizados por suas próprias limitações inconscientes (ou conscientes) e estressados pela força do Estado - corrupto e corruptor. Avançamos tateando no escuro do túnel, sempre em busca da luz ao final da jornada. Luz que poderia ser a que Norbert Elias aponta como elemento de mediação. Precisamos de bons mediadores: inicialmente com nossas próprias fragmentações e nossas próprias inconclusões íntimas. Depois,precisamos também de ferramentas de mediação com o outro nessa selva da desordem desafiadora à ordem existente ou aparente. É aqui que a violência pode ser uma abismal alavanca para mediar conflitos de forma mais brutalizada - do mais forte sobre o mais fraco -; institucionalizada - do vencedor sobre o vencido -;   ou simplesmente desvairada - de todos contra tudo e todos tal qual guerreiam os membros do Estado Islâmico, todos homicidas e igualmente suicidas.

Pelo bem da civilidade, a virtude poderia ser resgatada como a mediação republicana - segundo defendeu Montesquieu. Mas sabemos que feras não sabem ler ou escrever, muito menos dialogar. Cabe ao homens de boa vontade encontrar retornos possíveis aos que nos imputam atalhos para o pântano coletivo. Mas como, perguntaremos nós mesmos, pseudo senhores de nossos destinos, sermos homens de boa fé ou de feliz vontade em cenários tão perturbadores? Seria melhor uma declaração de guerra formal para darmos carta branca (ou vermelha) ao exército de Thanatos que nos divide com nosso Eros? Certamente que não pois a Primeira Guerra Mundial do Século XX, num exemplo dos mais conhecidos, nos mostrou o horror que povos ditos civilizados foram capazes de infligir mutuamente. Mas então, qual escapatória? Não há. A vida é processo e aceitação. Mas também resistência e preservação, resiliência e glória. Sobreviver deve ser a determinação divina, assim como certas espécies de formigas sobrevivem a mudanças abruptas de temperatura, salientando que nunca será uma comparação favorável à espécie humana ser comparada a bandos de insetos mentecaptos.

Pesado, de qualquer modo, aceitar o jogo da hipocrisia, da corrupção moral de eleitos e dos áulicos em seus truques grotescos de manutenção do poder. Difícil para homem ordinário saber como se comportar perante a infâmia daqueles que deveriam zelar pela coletividade. Afinal, pelo grau da infâmia cometida julgaremos o aceite ao baile da violência aparentemente sem sentido, mas praticada naqueles determinados momentos que se apresentam como sendo "sem escapatória". Instinto de defesa. Quando a continuidade da paz social volta à mesa de mediações entre poderosos detentores e controladores das instituições e os excluídos (das relações institucionalizadas do Poder). Há que se buscar novo contrato social tendo em pauta a justa ideia de que é primordial negociar deveres com homens que só almejam direitos. 

E que com as feras humanas não há diálogo possível, por certo. 

Um comentário:

Luiz Antônio Gaulia. disse...

Reescrevo aqui um trecho de um texto que sinto ser complementar ao post de hoje. É ele: "O direito é o poder de uma comunidade", o direito é, ainda e sempre, violência. E Freud conclui: "É um erro de cálculo não considerar que o direito em sua origem foi violência bruta e que ainda hoje não pode prescindir do apoio da violência." Freud se recusa a identificar tanto a violência quanto o mal à pulsão de morte e o bem e a paz à pulsão de vida, a Eros. O entrelaçamento entre eles é fundamental ou mesmo inextricável, pois a pulsão amorosa, por exemplo, tem também necessidade da pulsão de domínio.".

Portanto, creio que não há muita solução mágica ou salvador da Pátria nos horizontes. A "caminhada se faz ao caminhar", não é?

Para registar, o TEXTO acima citado foi extraído diretamente da seguinte FONTE:
Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica
Print version ISSN 1516-1498
Ágora (Rio J.) vol.7 no.1 Rio de Janeiro July/Jan. 2004

Abraços fraternos a todos os leitores.